Há uma Esquerda na Europa!

Fonte: Esquerda.net (Portugal)

No comício internacionalista que antecedeu a VIII convenção do Bloco de Esquerda, representantes de partidos da Alemanha, França, Grécia, Espanha e Portugal reuniram-se para mostrar que a solidariedade não é uma palavra vã e que a esquerda europeia é a da luta e da alternativa.
Artigo | 10 Novembro, 2012 – 03:29

Sala cheia para ouvir os diversos representantes da esquerda europeia

Sala cheia na noite desta sexta-feira no pavilhão do Casal Vistoso, ao Areeiro, em Lisboa, para ouvir os diversos representantes da esquerda europeia, reunidos na véspera de acontecimentos de importância decisiva como é a greve geral e jornada de luta europeia no próximo dia 14. Um comício tão vibrante e entusiasta que nem a ausência de Alexis Tsipras, retido pela discussão do orçamento da Grécia este domingo, mas que mandou um vídeo (veja na TV Esquerda) nem de Jean-Luc Mélenchon (doente, mas que enviou um discurso que foi lido por Céline Menezes, dirigente do Parti de Gauche) fizeram que os ânimos esmorecessem.

Europa alternativa está a passar por aqui

A eurodeputada Alda Sousa, do Bloco de Esquerda, abriu o comício apresentando os oradores e justificando as ausências, e afirmando que as esquerdas europeias “juntam-se aqui hoje não só para dizer basta, mas também para desenhar alternativas”. Alda Sousa desenvolveu a ideia de que a Grécia e Portugal têm sido as cobaias das políticas de austeridade preconizadas pela Comissão Europeia, que são a política do desastre. “Mas a experiência da Grécia mostra que é possível resisitir e que em política não há inevitabilidades, há escolhas”, sublinhou, para concluir: “Uma Europa alternativa está a passar por aqui!”

Merkel vive num mundo à parte”

Gabrielle Zimmer, do Die Linke da Alemanha, destacou a greve geral de dia 14, quando em Portugal, na Grécia, em Espanha e em Itália as pessoas “vão expressar de forma clara o que pensam de uma política que viola diariamente a sua dignidade”. E garantiu: “Estamos todos solidários com a vossa luta. Os governantes, quando se voltarem a reunir para decidir o destino de milhões de pessoas, não podem ficar apenas e só com as orelhas quentes”.

Para a dirigente da esquerda alemã, os governantes europeus têm a responsabilidade de a União Europeia “estar a evoluir cada vez mais para um projeto de domínio neoliberal, de estarem a aumentar as divisões sociais, de se aprofundarem os desequilíbrios económicos e de se acentuar o carácter autoritário da UE”, sublinhando que o que os motiva “não é a preocupação pelo dramático agravamento das condições sociais e ecológicas da vida das pessoas, mas sim o medo pela perda de influência económica e política no mundo”, e por isso as suas ideias passam ao lado das necessidades reais.

Gabriele Zimmer enfatizou que o futuro da Esquerda na Europa também vai depender de nos conseguirmos apropriar dos problemas dos gregos, portugueses ou também espanhóis. “Na Europa, ser da esquerda significa ser europeu e solidário”, afirmou, acrescentando que a chanceler do seu país, Angela Merkel, vive num mundo à parte. Por isso, desejou que os portugueses, durante a sua próxima visita a Lisboa, a façam pôr os pés na terra.

A cadeia que enforca a Europa vai-se romper

O discurso de Jean-Luc Mélenchon foi lido por Céline Menezes em castelhano, língua que o dirigente francês domina.

“Frente à internacional da austeridade e da finança, existe a internacional da solidariedade e da partilha”, afirmou o ex-candidato presidencial francês. “Somos a ferramenta dessa internacional. Não somos meramente um sonho. Somos o começo da realização deste mesmo sonho”, em que cada um reforça o outro, disse, referindo-se aos resultados do Syriza, do Front de Gauche, do Bloco de Esquerda.

O dirigente da Frente de Esquerda francesa não economizou palavras para garantir que a esquerda se preparava para os seus futuros governos, afirmando a certeza de que a cadeia que enforca a Europa se vai romper. “Não sei onde. Não sei como. Não sei de que lado. Será na Grécia? Será em Portugal? Será em Espanha? Será em França? Será por um acontecimento fortuito? Será por uma ação de massas? Não sabemos. Mas sabemos que basta que a cadeia se rompa num só ponto, num só país, para que todo o sistema bancário e financeiro europeu entre numa crise generalizada. E então, estaremos na primeira linha”.

Lembrando que por muito pouco Alexis Tsipras não foi primeiro-ministro da Grécia, o dirigente francês enfatizou que “os nossos programas devem ser de uma radicalidade concreta”, para ajudar o povo a prepara-se para tomar o próprio poder cidadão. “Os nossos governos devem saber começar de imediato as necessárias planificação ecológica e reorganização da sociedade. Essa é a nossa responsabilidade diante da história contemporânea”.

Criticando o novo governo do PS francês por se alinhar com a política de austeridade, sublinhou que essa decisão vai ajudar a mergulhar toda a Europa na recessão. E concluiu afirmando que “Somos um dos futuros possíveis da União Europeia”, para rematar: “Camaradas, recordemos que o pior seria que fôssemos incapazes de retirar da crise a oportunidade de dar a luz a um mundo novo”

O povo não perdoa o desprezo e a mentira.”

Na mensagem enviada por vídeo, Alexis Tsipras, do Syriza da Grécia, afirmou que os memorandos da troika não têm como objetivo a salvação da economia e a saída da crise.

“Eles têm como objetivo o empobrecimento dos nossos países. E nunca param. Não há fim para esta decadência, a não ser quando o que povo imponha uma solução, com a sua luta e o seu voto”.

Lamentando que o Syriza tenha perdido a oportunidade em julho de formar um governo de esquerda, que cancelaria o memorando e exigiria a renegociação do empréstimo e uma solução europeia coerente para o problema da dívida pública, Tsipras criticou violentamente o atual governo tripartido, afirmando que o primeiro-ministro Samaras “esquece ou não quer compreender que o povo não perdoa o desprezo e a mentira.”

Para o dirigente do Syriza, os povos da Europa do sul, as cobaias da experiência europeia de autoritarismo financeiro, não obedecerão a esta nova ronda de desastre. “Neste momento, o povo grego está de novo nas ruas, para parar a barbárie. Há dois dias, realizou-se uma nova greve geral de 48 horas, seguida de mobilizações contínuas contra as novas medidas e o Orçamento”, mostrando-se convencido de que “este governo pró-memorando terá o mesmo destino que os dois anteriores”, exigindo eleições já, para evitar o desastre.

O que o Syriza quer, afirmou, é o fim imediato de toda a negociação deste 3º Memorando e a retirada imediata dos seus projetos de lei. Uma renegociação profunda do contrato do empréstimo, que respeite a soberania popular e a dignidade do país. Um acordo europeu sobre a dívida, que inclua a abolição de uma parte da dívida pública dos Estados sobre-endividados e “a introdução de uma pré-condição de crescimento positivo para o pagamento do resto da dívida, como foi acordado com a Alemanha em 1953”. E sublinhou: “Uma solução socialmente sustentável e democrática só pode triunfar através de um acordo europeu entre parceiros institucionalmente iguais na Zona Euro”.E concluiu: “Podemos mudar a relação de forças! Os povos da Europa vencerão!”

Os contribuintes alemães não pagaram um só euro para os resgates”

A eurodeputada Mariza Matias recordou a manifestação com que eurodeputados da esquerda receberam a chanceler alemã no Parlamento Europeu, com cartazes onde se lia que “a austeridade mata”, para afirmar que esse foi só um aperitivo para o que vai acontecer dia 12 em Lisboa.

“Merkel quer apresentar-se em Lisboa a dizer que nos está a ajudar pelos erros que cometemos no passado. Mas sabemos como isso é mentira, sabemos que os contribuintes alemães não pagaram um só euro para os resgates”, afirmou Mariza Matias, enfatizando que sabemos também que não são os trabalhadores alemães que lucram com a austeridade. “São os bancos alemães”, afirmou, assegurando que o Bloco de Esquerda é solidário com os trabalhadores alemães que também estão sob o garrote salarial da senhora Merkel.

E concluiu: “Dizem-nos que a recessão e o desemprego são apenas efeitos colaterais da austeridade, que o importante é que os países possam voltar aos mercados. Mas será que a Grécia voltou aos mercados? E Portugal?”, sublinhando que é preciso romper com o memorando que retira os salários e quer destruir o Estado social.

Defender a democracia é um gesto revolucionário”

Cayo Lara, da Esquerda Unida, do Estado espanhol, sublinhou que no dia 14 de novembro será preciso derrotar um grande piquete dos patrões que ameaçam despedir os grevistas. “É esse piquete que vamos enfrentar. O dirigente recordou que “já fizemos duas greves gerais, uma contra o governo do PS e outra contra o do PP subordinando à troika, sublinhando que “a austeridade é um absoluto fracasso”. Recordou a situação devastadora que vive a Espanha com um a cada quatro trabalhadores desempregado, sendo que o desemprego jovem é de 53%, destruíram-se 200 mil empresas, e despejaram-se já 400 mil famílias das suas moradias porque ficaram desempregadas e por isso não podem pagar as prestações das casas. Por causa disso, recordou, há pessoas a suicidarem-se antes do despejo.

“Que tempos estes, em que defender a democracia se transformou num gesto absolutamente revolucionário!”

A Península Ibérica começou a mobilizar-se junta”

A concluir, Francisco Louçã destacou, com bom humor, que este foi o primeiro comício em que participou que teve legendas, destacando a importância do cruzamento de tantos idiomas que simbolizam esta união da esquerda europeia (veja o discurso na TV Esquerda).

Referindo-se à atual situação da União Europeia, Louçã disse que quando a chanceler Merkel diz que os países sobreendividados devem perder a sua soberania, o povo só pode defender-se, porque Merkel é apenas a intermediária dos agiotas alemães.

Ironizando, disse que recebeu a informação de que a chanceler, durante a visita a Lisboa, vai-se reunir com Passos Coelho no forte de S. Julião da Barra. “Reparem que o forte foi construído para defender Lisboa dos piratas que entrassem no Tejo, quem iria pensar que um dia os piratas estariam dentro do forte! O bom, no entanto, é que enquanto se reúnem no forte o povo se manifesta em liberdade nas ruas”.

Observando que cada dia que passa Merkel fica mais arrogante, Louçã referiu-se aos que querem a troika mais tempo em Portugal questionando: será que eles olham para Merkel? “A troika será cada vez pior. No ano 1 teremos duas vezes 4 mil milhões de cortes, privatizações, roubo de salários. No ano 2 estão a dizer que querem um estado novo. E no ano 3?”

Em conclusão, o coordenador do Bloco disse que as esquerdas unidas estão prontas para lutar contra o terrorismo financeiro”, rematando com o grito: “Há uma esquerda na Europa!”

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