Robert Fisk: o relato de um crime de guerra (Sabra e Chatila)

“O que encontramos nos campos [de refugiados] palestinos naquela manhã de setembro de 1982 […] foi uma execução em massa, uma atrocidade”

19/09/2012

Baby Siqueira Abrão

Correspondente no Oriente Médio

Robert Fisk, um dos jornalsitas a ingressar no

campo depois do massacre – Foto: Majorie Lipan-CC

Eram dez da manhã de 18 de setembro de 1982 quando Robert Fisk e mais três jornalistas – Loren Jenkins, de The Washington Post, Paul Eedle, da agência de notícias Reuters, e Bill Foley, da Associated Press – entraram em Sabra e Chatila. Foi um choque e tanto, como relata Fisk em seu livro Pity the Nation: The Abduction of Lebanon [O lamento da nação: o rapto do Líbano, em tradução livre]. Acompanhe.

O que encontramos nos campos [de refugiados] palestinos naquela manhã de setembro de 1982 […] foi uma execução em massa, uma atrocidade. Aquelas pessoas foram assassinadas [quando estavam] desarmadas. Foi algo muito além daquilo que os israelenses, em circunstâncias diferentes, chamariam de atividade terrorista. Era um crime de guerra. Ficamos tão atormentados com o que vimos em Chatila que, no começo, fomos incapazes de registrar nosso próprio choque. Foley, circulando por ali, só conseguia repetir uma expressão: “Jesus Cristo!”.

Imaginávamos encontrar evidências de alguns assassinatos; até mesmo vários corpos, mortos no calor do combate. Mas víamos mulheres caídas nas casas, com as saias levantadas até a cintura e as pernas abertas, crianças com as gargantas cortadas, jovens mortos pelas costas depois de terem sido colocados em paredões de execução. Vimos bebês – enegrecidos, pois haviam sido assassinados mais de 24 horas antes e seus pequenos corpos já tinham começado a se decompor – atirados ao lixo, em pilhas, ao lado de latas descartadas de comida do exército dos Estados Unidos, equipamento médico do exército israelense e garrafas de uísque. Onde estavam os assassinos? Ou, para usar o vocabulário de Israel, onde estavam os “terroristas”?

Quando nos dirigíamos a Chatila, vimos soldados israelenses no alto dos prédios de apartamentos da avenida Camille Chamoun. Mas eles não tentaram nos deter. Na verdade, fomos primeiro ao campo de Burj al-Barajneh porque alguém nos dissera que houvera um massacre ali. Mas tudo que vimos foi um soldado libanês perseguindo um ladrão de carros. Foi quando voltávamos para casa, passando pela entrada de Chatila, que Jenkins decidiu parar o automóvel. “Não gosto disso”, ele comentou. “Onde está todo mundo? Que m* de cheiro é esse?”

Na entrada sul do campo costumavam haver várias casinhas térreas. Eu tinha feito entrevistas ali nos anos 1970. Quando descemos do carro e caminhamos pela entrada enlameada de Chatila, vimos que as casinhas tinham sido destruídas. Caixas de cartuchos estavam jogadas ao longo da rua principal. Vi muitas granadas de luz israelenses, ainda atadas a seus minúsculos paraquedas. Nuvens de moscas sobrevoavam o entulho.

Mais adiante, num beco à nossa direita, a uns 50 metros da entrada, vimos um monte de corpos. Havia mais de doze deles, jovens cujos braços e pernas tinham se enroscado uns nos outros na agonia da morte. Foram assassinados à queima-roupa, a bala atravessando as bochechas em direção à orelha e ao cérebro. Alguns tinham cicatrizes negras ou de um tom vívido de escarlate do lado esquerdo da garganta. Um deles fora castrado, e a calça aberta mostrava moscas voando sobre seu intestino rasgado.

Os olhos desses jovens estavam abertos. O mais novo devia ter 12 ou 13 anos. Vestiam jeans e camisetas coloridas, agora agarradas aos corpos, que começavam a inchar por causa do calor. Nada fora roubado. No pulso de um deles, um relógio suíço marcava a hora certa […].

Do outro lado da rua principal, através de uma brecha nos escombros, vimos os corpos de cinco mulheres de meia idade e de muitas crianças. Uma moça estava deitada de costas, o vestido aberto e a cabeça de uma garotinha aparecendo por detrás dela. A menininha tinha cabelo curto, escuro, seus olhos nos fitavam e sua expressão era contraída. Estava morta.

Vimos outra criança deitada na rua como uma boneca descartada, o vestido branco sujo de lama e poeira. Não tinha mais de três anos de idade. A parte de trás da cabeça fora arrancada por uma bala. Uma das mulheres ainda apertava um bebezinho no colo. A bala atravessara seu seio e matara também a criança. Alguém abrira seu estômago, cortando as laterais e depois a parte de cima, talvez na tentativa de matar o filho que ela esperava. Os olhos da mulher estavam esbugalhados, e sua expressão era de horror.

Então ouvimos um homem gritar em árabe, em meio às ruínas: “Eles estão voltando!” Amedrontados, corremos na direção da rua. Lembrando disso agora, penso que foi provavelmente a raiva que nos fez parar na entrada do campo, esperando para ver os rostos dos responsáveis por tudo aquilo. Eles deviam ter sido enviados com a permissão de Israel. Deviam ter sido armados pelos israelenses. Seu trabalho sujo fora certamente observado – bem de perto – pelos israelenses, que naquele momento nos vigiavam com seus binóculos.

Quando um assassinato se torna um ultraje? Quando uma atrocidade se torna um massacre? Ou, colocado de outra maneira, quantos assassinatos fazem um massacre? Trinta? Cem? Trezentos? Quando um massacre não é um massacre? Ou o que acontece quando um massacre é cometido por amigos de Israel e não por seus inimigos?

É esse, suspeito, o cerne da questão. Se tropas sírias entrassem em Israel, cercassem um kibutz e permitissem que seus aliados palestinos matassem os judeus que morassem nesse kibutz, nenhuma agência ocidental de notícias perderia tempo questionando se isso seria ou não um massacre.

Mas em Beirute as vítimas eram palestinas. Os culpados eram milicianos cristãos […], mas os israelenses também tinham culpa. Mesmo que não tivessem participado do massacre, enviaram as tropas aos campos. Eles os treinaram, deram-lhes uniformes, ração do exército estadunidense e equipamento médico israelense. Cuidaram dos assassinos, ofereceram assistência militar – as forças aéreas de Israel atiraram todos os fachos de luz que ajudaram os assassinos a localizar os habitantes de Sabra e Chatila – e estabeleceram contatos militares com os assassinos nos campos.

Fonte: Brasil de Fato

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