Igor Fuser: EUA são responsáveis por filme antimulçulmano

“O governo dos EUA é culpado, sim, pelo que ocorreu”, avalia professor de relações internacionais da Universidade Federal do ABC, Igor Fuser, sobre os agressivos protestos em várias partes do mundo contra o filme que ridiculariza o profeta Maomé.

O vídeo “A Inocência dos Muçulmanos”, publicado no Youtube, que está por trás da revolta, mostra em 13 minutos o profeta Maomé como um mulherengo, um molestador de crianças, um falso religioso e sanguinário.

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Em entrevista ao IAnotícia, Igor Fuser, doutor em ciência política pela USP, avalia que os manifestantes que atacaram as embaixadas norte-americanas são fundamentalistas islâmicos que os EUA arregimentaram recentemente como aliados contra regimes árabes seculares, na Líbia e, agora, na Síria.

IAnotícia: Por que um filme mal feito provoca tanta revolta entre os muçulmanos no Oriente Médio?
Igor Fuser: Os muçulmanos, habitantes de países na periferia do sistema capitalista e submetidos durante mais de um século às potências do Ocidente — primeiramente, pelo domínio colonial e, depois, pelo imperialismo, que agora é disfarçado com o nome de globalização — se sentem prejudicados pela distribuição desigual do poder e da riqueza no mundo. Esse sentimento difuso de perda, abuso e discriminação acaba se associando a elementos de identidade cultural, particularmente à religião islâmica. Quanto ocorrem episódios de ofensas públicas ao Islã, como já havia ocorrido no caso das charges anti-muçulmanas publicadas há alguns anos na Dinamarca, a raiva acumulada vem à tona de uma forma explosiva.

As embaixadas dos EUA foram atacadas em vários países árabes. O governo dos EUA é culpado pelo filme que ridiculariza o profeta Maomé?
Indiretamente, o governo dos EUA é culpado, sim, pelo que ocorreu. Em primeiro lugar, pelo apoio irrestrito que dá a Israel e às políticas agressivas e expansionistas do sionismo, em prejuízo dos árabes da Palestina. Essa ligação aparece a partir da notícia de que o filme foi financiado por sionistas estadunidenses. Em segundo lugar, pelo seu papel como a principal das potências que exercem o domínio ocidental no Oriente Médio. Finalmente, em terceiro lugar, por difundir uma visão preconceituosa que associa o islamismo e os árabes em geral ao terrorismo.

A relação dos EUA com outros países islâmicos pode ser afetada? Assim como a “Primavera Árabe” que derrubou ditadores, a tensão gerada pelo filme pode incentivar os governos árabes a agir militarmente ou economicamente, no caso do petróleo, contra os EUA?
O episódio do ataque a instalações diplomáticas dos EUA na Líbia e em outros países árabes contém uma curiosa ironia, uma vez que os agressores são fundamentalistas islâmicos que os EUA arregimentaram recentemente como aliados contra regimes árabes seculares, na Líbia e, agora, na Síria. Ou seja, depois de duas décadas demonizando o islamismo político como um ninho de terroristas, a Casa Branca se associa a essa corrente no combate ao inimigo comum, ou seja, aos regimes que representam o que restou do decadente nacionalismo árabe.

E, como ocorreu no Afeganistão, onde a Al Qaeda foi treinada inicialmente pela CIA para combater as forças soviéticas, o feitiço mais uma vez se virou contra o feiticeiro. Quanto ao risco de um novo Choque do Petróleo, ele é inexistente, mesmo porque não há qualquer interesse dos governantes dos petroestados árabes em aplicar tal medida. Tanto na Arábia Saudita, quanto nas demais monarquias do Golfo, quem está no poder são governantes totalmente submissos aos interesses dos EUA. Já o Iraque e a Líbia, outros importantes exportadores de petróleo do mundo árabe, estão sob a tutela militar dos EUA, o que exclui qualquer possível desafio aos seus senhores.

Segundo a Reuters, o filme foi financiado por mais de 100 doadores judeus. O próprio diretor, Sam Bacile, um israelense que mora nos EUA, disse que o “Islã é um câncer”. Qual a sua avaliação sobre isso?
Esse é um ponto de vista anti-islâmico preconceituoso, completamente obtuso, próximo do nazismo, mas que, infelizmente, é muito difundido por grande parte do movimento sionista e dos seus simpatizantes nos EUA e em outros países ocidentais. Até mesmo no Brasil.

O vídeo postado no Youtube só ficou conhecido depois da divulgação do polêmico pastor norte-americano Terry Jones, conhecido por queimar o Alcorão. O preconceito contra árabes está aumentando? O governo do presidente Barack Obama deveria tomar alguma providência?
A melhor coisa que o presidente Barack Obama poderia fazer para combater os preconceitos anti-árabes é tomar uma atitude prática, no campo da política externa dos EUA, contra a ocupação ilegal da Palestina por Israel. Uma medida dessa tipo sinalizaria que o governo da maior potência do planeta considera os árabes como seres humanos merecedores de dignidade e respeito, em pé de igualdade com os cristãos ocidentais e os judeus.

Fonte: IAnotícia, Vermelho

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