Ivan Seixas: “O ‘Capitão Lisboa’ deu a paulada final que matou meu pai”

Fonte: Viomundo.

À esquerda, Ivan Seixas, tendo atrás a imagem do pai assassinado. À direita, Davi Araújo/Capitão Lisboa que os torturou

por Conceição Lemes

Nessa segunda-feira, jovens doMovimento Levante da Juventude fizeram protestos em várias cidades brasileiras para escrachar ex-agentes da ditadura militar. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o alvo foi David dos Santos Araújo. Aqui e lá, as manifestações ocorreram, respectivamente, na frente da sede e da filial da sua empresa de segurança privada

David dos Santos Araújo, nas ações de repressão do DOI-CODI-SP, utilizava o nome de Capitão Lisboa. Ele está envolvido na tortura e morte de Joaquim Alencar de Seixas. Ainda torturou Ivan e abusou sexualmente de Ieda, filhos de Joaquim. Na ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal de São Paulo contra vários ex-torturadores, essas atrocidades estão detalhadas. Abaixo a parte diz que respeito a David Araújo.

Identificado como um dos responsáveis pela morte de Joaquim Seixas

Era o torturador que mais batia; como Ivan descobriu a sua identificação

Lisboa a Ivan: “Não tenho medo de você”. Como abusou sexualmente de Ieda

Em função das manifestações dessa segunda-feira do Levante da Juventude, Ivan Seixas acabou “reencontrando” o seu torturador, um dos assassinos de seu pai e estuprador de sua irmã. Resolvi revistá-lo então.

Tentei ouvir também David Araújo sobre tudo isso. Liguei para a sua empresa, a Dacala, deixei recado, mas não houve retorno.

Atualmente, Ivan Seixas preside o Condepe-SP (Conselho Especial de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana).

Viomundo — Como foi ver os jovens se manifestando na frente da empresa do policial que o torturou, matou o seu pai e abusou sexualmente da sua irmã?

Ivan Seixas – Uma emoção muito grande ver a juventude do meu país outra vez nas ruas por uma causa tão justa. Emocionei-me muito vendo o rosto de meu pai sendo empunhado por gente com a idade que eu tinha quando vi meu pai nas salas de tortura antes de ele ser assassinado pelo “Capitão Lisboa”. E, como é característica dos covardes, David dos Santos Araújo se escondeu, agora, dos jovens.

Viomundo — Você sabia do paradeiro dele e o que fazia?

Ivan Seixas – Sabia que era dono de uma empresa de segurança privada, mas nunca tive a preocupação de saber mais sobre ele ou sobre os outros do naipe dele. Sei que ele é o mantenedor do advogado do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, como noticiaram os jornais. Essa gente se lambuzou de dinheiro dos empresários que financiaram as torturas e com o sangue de brasileiros e brasileiras.

Viomundo – Sabe como ele matou seu pai?

Ivan Seixas – Outros torturadores me disseram depois que o “Capitão Lisboa” deu a paulada final que matou meu pai. Foi ele também que cometeu violência sexual contra minha irmã mais velha, que foi presa junto com minha mãe e minha outra irmã.

Viomundo –Como ele te torturou?

Ivan Seixas –– Ele se revezava com os outros torturadores para torturar meu pai ao mesmo tempo que me tortu ravam. Ele me torturou muito, ficou em pé sobre meu peito quando eu estava pendurado no pau-de-arara e quebrou uma vértebra de minha coluna com uma paulada.

Viomundo — Depois que saiu da prisão, você já esteve cara a cara com ele?

Ivan Seixas – Em 1990, durante os interrogatórios da CPI das Ossadas de Perus, na Câmara de Vereadores de São Paulo, eu e a Amelinha Teles fomos colocados frente a frente com esse cara para reconhecer o tal “Capitão Lisboa”, visto que ele negava.

Quando a Amelinha Teles disse que o reconhecia como sendo o torturador “Capit ão Lisboa”, sua resposta cínica :”Eu não conheço essa mulher. Eu nunca torturei mulher feia“.

Depois foi minha vez. Ele ficou furioso quando eu disse que ele era o torturador e me conhecia, pois eu tinha dado um murro em sua cara e o jogdo longe. Ele ficou furioso e acabou por reconhecer que tinha interrogado meu pai.

Viomundo — Agora que David Araújo/Capitão Lisboa está escrachado, qual a tua expectativa?

Ivan Seixas – Acho ótimo que os jovens saiam às ruas para fazer, mais uma vez, a boa política dos indignados. Não podemos aceitar o esquecimento como norma. Não podemos deixar que o massacre de “hoje” tome o lugar dos de “ontem”, e o esquecimento os apague. Isso não faz bem ao país.

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