“Na Palestina há uma ocupação estrangeira” – Entrevista de Ualid Rabah, diretor de relações institu cionais da Federação Árabe Palestina do Brasil

Leia a seguir a primeira parte da entrevista que Ualid Rabah, diretor de relações institucionais da Federação Árabe Palestina, concedeu ao Página 13.

Se as forças políticas não-sionistas em Israel tiverem um papel importante na conquista da paz, elas poderiam vencer as eleições e fazer de Israel um país pacífico e integrado à sua região?

UALID RABAH. Indo ao ponto: o conjunto de forças progressistas que integram o tecido político israelense só será capaz de desempenhar este papel, em minha opinião, quando se livrar do pesado legado sionista. É que muitos dos homens e mulheres progressistas de Israel continuam se percebendo como os antigos judeus de esquerda que, embora não concordassem com a ala bárbara do sionismo, também, por outro lado, se viam como “libertadores civilizados” da Palestina, que para ali iriam para libertar os palestinos, e não só do colonialismo, mas de seu obscurantismo oriental e religioso, aí em clara depreciação do islamismo. Feito isto, estas forças não só salvarão a Palestina como espaço vital e democrático para todos que ali vivem, muçulmanos, cristãos e judeus, autóctones ou não, como salvarão o judaísmo do sionismo. E mais: o sionismo conseguiu de tal maneira seqüestrar o judaísmo dos judeus, tornando-os defensores cegos e acríticos de Israel e de seus crimes, que seus espaços religiosos estão, aos poucos, passando a ser sucursais deste Estado e não mais ambientes de orações e outros serviços religiosos. Neste momento a sociedade israelense verá o óbvio, do qual é propositalmente cegada pelo sionismo: do lado palestino e dos árabes em geral sempre houve parceiros para a paz. Mas, em resumo, acredito sim que uma mudança nos ares políticos israelenses, que supere as duas facetas do sionismo que se completam, Likud à direita e trabalhistas à esquerda, permitam uma janela para a paz na Palestina e na região.
O uso de atentados contra civis israelenses já foi repudiado como forma de luta por todas as forças políticas da Palestina. Existe verdade nos rumores de que os serviços secretos de Israel podem provocar atentados, utilizando-se de fanáticos fundamentalistas árabes para executá-los, de maneira a desmoralizar a causa palestina e impedi-la de ganhar apoio da opinião publica mundial e do eleitoral de Israel?

UALID RABAH. É flagrante que os atentados a que você se refere se deram em momentos cruciais, momentos em que a Israel não restava alternativa que não fosse aceitar de uma vez por todas o Estado Palestino, bem como, ao final, resolver os demais problemas, como o dos refugiados, que são perto de 5 milhões, o status de Jerusalém, as fronteiras, o acesso à água e muitos outros.Sem contar os postos de controle – mais de 700 ainda nos dias de hoje – que infernizam e inviabilizam a vida econômica e social dos palestinos, as invasões cotidianas de cidades e vilas palestinas, os massacres de Jenin em 2002, Gaza em 2006/2007 e 2008/2009, Líbano em 2006 etc. E caso alguém tenha alguma dúvida disto, pergunto: qual o governo sério que chegou ao poder em Israel desde então? Para coroar esta percepção, quem assassinou Ytzak Rabin?
O presidente Lula e a presidenta Dilma Roussef, por seu passado de lutadores contra uma ditadura militar, que alcançaram a Presidência da República pela via eleitoral, poderiam servir de exemplo aos povos e forças políticas de esquerda do oriente médio?

UALID RABAH – Bem, seguramente que sim, desde que sejamos capazes de distinguir o que há de diferente e de igual ou, no mínimo, parecido entre as situações. A diferença fundamental é a seguinte: na América Latina tínhamos ditaduras militares, via de regra alimentadas por um anticomunismo doentio que emoldurava o período da chamada guerra fria. Já na Palestina há uma ocupação estrangeira. Mas, há por outro lado, muitas coisas que podem ser tidas como comuns. A primeira delas é que o inimigo é o mesmo: o imperialismo estadunidense, que promoveu todos os golpes de estado na AL, todas as guerras civis do continente e todas as demais mazelas, entre elas a tortura e os milhares e assassinados e desaparecidos, e no Oriente Médio sustenta Israel e ditaduras infames que sufocam suas populações, em geral miseráveis. Uma coisa muito interessante demonstrada pelo Governo Lula, e também pelo atual, é que não há sucesso para a nação que se vergar aos desígnios dos EUA.

A entrada de Brasil, Índia e África do Sul, ou de algum deles, no Conselho Permanente de Segurança das Nações Unidas, poderia ajudar no processo?

UALID RABAH. Primeiro de tudo: se Oslo morreu, idéia já aceita em muitos círculos políticos e diplomáticos, a culpa é única e exclusivamente dos EUA, que perderam toda autoridade moral e ética na mediação do conflito ao apoiarem acriticamente Israel, especialmente em momentos de gravidade ímpar, como nos ataques ao Líbano em 2006 e a Gaza em 2008/2009, sem contar o obsceno cerco a Yasser Arafat, a Mukata, em Ramallah, pelas forças de ocupação de Israel. Foi tão vergonhosa a postura dos EUA que estes vetaram, no Conselho de Segurança da ONU, todas as resoluções que visavam salvaguardar os direitos palestinos. Já o Brasil e demais países citados precisam, para seus sucessos, de um novo mundo, multipolar e no qual os pressupostos e paradigmas sejam diferentes dos atuais. Se nos situarmos apenas no Oriente Médio teremos que este aí vigente, conflagrado, só interessa aos EUA e seus aliados europeus, que vivem da indústria da guerra e da expropriação indecente do petróleo desta região. Como vai o Brasil ter negócios e intercâmbios nesta região se ela é ocupada pelos EUA justamente para que ninguém entre? Por que o Brasil deveria se alienar de um mundo, o árabe, que tem mais de 400 milhões de habitantes e que necessita de muitas das coisas que só o Brasil pode oferecer? Por estas e outras o Brasil mereceria, sim, um assento no Conselho de Segurança da ONU. Seria um meio de equilibrar o cenário internacional, já insuportável sob as hegemonias de hoje, resultantes do pós-guerra.

Fonte: Página 13

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