A crise do capitalismo e a necessidade de uma Frente Antiimperialista Mundial

SUPLEMENTO ESPECIAL do Revolução Socialista

para FORUM SOCIAL TEMÁTICO
2012

A atual conjuntura internacional está exigindo importantes definições estratégicas por parte dos países que buscam independência da dominação do imperialismo anglo-americano. Países que estão buscando uma via de desenvolvimento soberano, os chamados emergentes e os que compõem o BRICS, e principalmente, aqueles países que estão ameaçados de destruição por parte dos EUA e seus aliados na OTAN encontram-se diante de uma encruzilhada da história e sob a ameaça concreta de ações militares do imperialismo, como única saída para sua crise que segue agravando-se.A crise do sistema capitalista atual não tem a mesma natureza que as crises ocorridas na primeira e na segunda guerra mundial.

A formação de vários blocos de países “independentes” como os BRICS, a articulação da Eurásia, a formação da CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos) e, principalmente, o espaço ocupado pela China hoje tem criado uma situação em que o imperialismo anglo-americano vê reduzidas suas margens de manobras para protelar sua crise nos marcos dos modelos clássicos, apenas descarregando-a sobre os países da periferia, como sempre fez no passado. Diante desta nova situação, as ações imperiais estão apontando cada vez mais para uma saída de guerra generalizada provocada pelos EUA e seus aliados no mundo. E com uma característica marcante que é a possibilidade real, concreta, praticamente inevitável, de uma guerra mundial atômica.


Inauguração da CELAC (Comunidade dos Estados Latinoamericanos e Caribenhos) (Caracas, 02/12/2011)

Apesar de toda a manipulação da mídia controlada pelas empresas a serviço do imperialismo, vai tornando-se cada vez mais aceita a conclusão ampla – sustentada publicamente por pensadores, personalidades políticas, ex-presidentes de república e militares honestos – de que o atentado de 11 de Setembro nos EUA foi, na verdade, um golpe de estado em escala global, organizado pela própria cúpula imperial norte-americana para justificar uma suposta “guerra contra o terrorismo” e, na seqüência, colocar em ofensiva os dispositivos militares imperiais, a começar pela invasão e destruição do Afeganistão, do Iraque e da Líbia. E, passo seguinte, colocar sob ameaça o Irã e a Síria, dois países que estão sendo alvo de sabotagens, atentados terroristas, execução de cientistas iranianos, com uma descarada colaboração da mídia internacional capitalista, inclusive a BBC e a TV Al-Jazeera, emissoras cada vez mais tragadas e submetidas à agenda da indústria bélica e petroleira imperialista.

Entretanto, não são apenas estes países os alvos centrais e fundamentais para o imperialismo. Eles estão localizados, principalmente, na Rússia e na China, dois países que vivenciaram experiências históricas, revolucionárias e que chegaram a assentar as bases de estruturas socialistas, ainda com todas as limitações no seu funcionamento político burocratizado, ou com as concessões injustificáveis ao enveredar por opções de mercado que, embora com certos resultados positivos no campo econômico, trouxeram também tremendas desigualdades sociais, diferenciação de classes, enriquecimento de pequenos círculos e corrupção. Há, na China, uma forte reação a esta política de apostar tudo na opção de vale-tudo, custe o que custar, via mercado, tendo surgido no âmbito do Partido Comunista Chinês tendências que reivindicam uma veemente correção de rumos que recuperem métodos e concepções socialistas.

No caso da Rússia, as gigantescas concessões contra-revolucionárias feitas ao capitalismo, o abandono da perspectiva socialista, as ilusões em torno dos acordos militares com os EUA, demonstraram a degeneração de uma camarilha que jamais aceitou que a superação dos desvios e limites burocráticos no funcionamento do Estado Operário Soviético pudesse ser feita pela via da democracia soviética. Mesmo com a expressiva debilidade do Partido Comunista Russo, sua falta de autoridade por não ter sido capaz de evitar o retrocesso social-histórico da URSS, a estrutura e a consciência social-revolucionária soviética se expressam, indiretamente, por meio de uma reação militar, seja no Exército Vermelho que volta a utilizar sua bandeira e seu hino da época da URSS, seja pelas crescentes denúncias de líderes militares quanto à urgência de planejar e preparar-se para a escalada de agressões imperialistas.


LIBIA: A impunidade de mais um crime da OTAN contra a humanidade

A explosividade deste cenário internacional pode ser medida por meio de declaração recente de Hu Ji Tao, dirigente da China, que convocou a união militar de seu país com a Rússia, dirigindo-se especialmente aos militares dos dois países, chamando-os para preparar-se a um enfrentamento com imperialismo que, segundo disse, “prepara-se para a guerra e só entende a linguagem da força militar”. Uma nova doutrina militar pode ser observada também nas declarações feitas por Putin e nas advertências de comandantes russos sobre os sinistros planos imperialistas de instalar supostos “escudos anti-mísseis” na Europa Central, ao que a Marinha da Rússia respondeu com a colocação de expressiva quantidade de navios militares no Mar Báltico, num duro e claro recado à OTAN.

Mesmo com a dura constatação, por parte dos comandantes russos, de que toda linha anterior de acordos e concessões entre Rússia e EUA resultou apenas num desarmamento unilateral quase total, tendo como contraponto uma expansão sem limites da OTAN, nota-se, mais recentemente, uma tendência pela coordenação de iniciativas e de acordos militares, industriais etc, sendo os mais importantes de todos os que aproximam cada vez mais Rússia e China. Vale lembrar que estes países chegaram protagonizar, décadas atrás, certas escaramuças de fronteira, chegando a posicionar tropas um enfrentamento, o que era acompanhado de uma guerra verbal.

Talvez o sistema capitalismo tenha já perdido o melhor momento para o lançamento de um ataque nuclear contra estes países. Hoje, não apenas a sua crise segue aprofundando-se, com vertiginosa perda de autoridade social e política, debilitando-o para uma ação reacionária mais organizada globalmente, como também houve o avanço de outros países no campo militar e nuclear, entre eles a China, a Índia, que integram os Brics, e o progresso militar-tecnológico de países como o Irã.

Entretanto, no campo político, a crise da capitalismo não vem sendo respondida por um esforço comum de organização política consciente por parte dos países, partidos e movimentos sociais que, com nuances e diferenciações, formam hoje o campo do antiimperialismo. Mesmo diante de suas derrotas no campo econômico e social, o capitalismo reage com agressividade militar, como se verificou na rápida definição da intervenção na Líbia, situação em que ficou revelada uma grande limitação da Rússia e China, que permitiram aprovação de Resolução no Conselho de Segurança da ONU que tomada e aplicada de modo arbitrário pela OTAN.

Uma maior organização e coordenação do campo progressista teria evitado a derrota do processo revolucionário na Líbia, a destruição do país, a morte de mais de 200 mil líbios e agora o seu controle por dispositivos mercenários com o total apoio da OTAN. Nesta derrota, parte da responsabilidade deve ser atribuída aos partidos de esquerda que assistiram passivamente o esmagamento do movimento de Moamar Kadafi, um aliado dos movimentos revolucionários da África e da América Latina. A heróica resistência das massas líbias e da própria direção, Kadafi e sua família, indicava existirem condições para uma ação preventiva por parte das forças progressistas mundiais. No entanto, excluindo algumas iniciativas políticas da Venezuela, com a intervenção dirigente de Hugo Chávez, com apoio da ALBA, e da também da África do Sul, denunciando a agressão imperialista na Líbia, sustentada por monumental manipulação midiática que tragou até mesmo televisões com a Al-Jazeera e a BBC para as entranhas do monstro da indústria de guerra, não houve uma unidade internacional na defesa da Revolução Líbia, que retirou aquele pais da condição de colônia atrasada e monárquica, levando-o a ser a nação com o mais elevado IDH da África e uma das sociedades mais justas do mundo, mesmo com suas insuficiências no sistema político.

A “Fórmula Líbia”, como denuncia Hugo Chávez, está montada para ser aplicada em outro país, como se verifica agora nas manobras externas para desestabilizar a Síria, com a infiltração de mercenários da OTAN, que praticam assassinatos diários de manifestantes para atribuí-los ao Governo Sírio, que é um aliado de Cuba, da Palestina, do Irã e tem presença importante no Movimento dos Países Não-Alinhados. É preciso agir com acuidade para não deixar-se enganar pelo discurso fraudulento que denuncia a Síria por violação dos direitos humanos, como ocorreu no caso da Líbia, o que levou a esquerda na Europa a uma patética paralisia e, até mesmo, a uma cumplicidade com o imperialismo. É espantoso que partidos de esquerda e intelectuais conhecidos ficaram do lado dos governos imperialistas da OTAN no justo momento em que estes governos cortam salários, empregos e direitos sociais, ao mesmo tempo em que torravam milhões de dólares na guerra contra a Líbia!

Evidentemente, nada disso justifica as indefensáveis concessões feitas por Kadafi ao imperialismo, o desarmamento unilateral da Líbia, criando condições para que a infiltração reacionária penetrasse fundo no país. Do mesmo modo, é fundamental que os movimentos progressistas do mundo discutam a experiência Líbia.

Se por um lado avançou econômica e socialmente, com um sistema avançado de direitos sociais, no sistema educacional e de saúde, por outro, ao não avançar para formas mais socialistas de participação direta das massas, na construção de um partido revolucionário que generalizasse as experiências teóricas e práticas da revolução no mundo e num sistema de democracia executiva e direta, permitiu-se o surgimento de condições que, de certo modo, isolassem a Líbia, na última etapa, dos movimentos revolucionários de todo o mundo. Registre-se que Kadafi foi atacado justo quando defendia a criação da Organização do Trato do Atlântico Sul (OTAS), a instalação de uma base naval russa na Líbia e o abandono do dólar para as operações com o petróleo. Fundamentalmente, a vitória da contra-revolução na Líbia, seu retrocesso, é, ainda, resultado da desorganização da União Soviética, do enfraquecimento do campo socialista, do debilitamento do Movimento dos Não-Alinhados, que sequer convocou uma reunião de emergência para discutir a agressão imperialista contra a revolução líbia. Ao contrário, muitos dos países que são membros dos Não-Alinhados, como o Egito, e outros da Liga Árabe ou foram favoráveis à intervenção imperialista ou se paralisaram diante dela.


O presidente Ahmadinejad do Irã se encontra com Fidel e fala aos estudantes cubanos sobre a falência do sistema capitalista

É urgente que os países da Alba, o Movimento dos Não-Alinhados, e o próprio governo Venezuelano, promovam a discussão sobre o que teria permitido tamanho retrocesso como na Líbia, a falta de unidade de ação do campo progressista e, agora, formas de apoiar a resistência que ainda luta para recuperar capacidade de ação no território líbio, onde persistem fortes enfrentamentos, com outras formas de luta, já que a desproporção de forças usadas pela OTAN impediram uma resistência mais eficiente quando da guerra.

Assim como o presidente Hugo Chávez lançou a idéia da formação de uma V Internacional – idéia momentaneamente em compasso de espera, mas não abandonada – é fundamental que todas as forças de esquerda, antiimperialistas, progressistas, venham ou não do campo religioso ou militar, reflitam, discutam e se organizem para impedir a falta de unidade que se registrou no episódio da Líbia, com alguns partidos comunistas ou socialistas praticamente lavando as mãos ante a gigantesca agressão da OTAN, o que significou lavar as mãos em sangue do povo líbio. E com uma parte da esquerda européia apoiando a ação imperial dos governos que combate nas ruas.


Visita do presidente Ahmadinejad do Irã à Venezuela, Equador, Nicarágua e Cuba, impulsiona a Frente Antiimperialista Mundial

É importante que esta discussão se faça agora quando tanto a Síria como o Irã estão sendo agredidos pela Fórmula Líbia, seja por atentados, por sanções econômicas e políticas, por grosseiras manipulações midiáticas que visam construir o clima necessário para submeter a ONU e para paralisar e intimidar os países que ainda posicionam-se com independência neste conturbado cenário internacional.

A agudização da luta de classes em escala internacional tende a levar países como o Brasil, ou a Argentina, a África do Sul e a Índia, a um posicionamento internacional para o qual não se prepararam politicamente. Porém, a crescente rivalidade destes países, em muitas questões, com o imperialismo é uma imposição do curso da história.

Um exemplo, é a posição do Brasil e dos países do MERCOSUL contra o colonialismo da Inglaterra nas Ilhas Malvinas, ou contra as ações aplicadas do Irã, ou em defesa da Palestina, ou criando a CELAC sem a presença dos EUA e com Cuba na sua direção, ou criando o Conselho Sul-Americano de Defesa no corpo da Unasul.
Ao mesmo tempo em que a constituição de uma Frente Única Mundial Antiimperialista deve ser sustentada, com chamados diretos à participação da Rússia e da China em sua direção, é fundamental dar seguimento a um conjunto de medidas, algumas já em curso, que tendam a formar um campo de funcionamento econômico alternativo, com iniciativas cooperativas no campo produtivo, financeiro, monetário, no sistema de trocas, no planejamento possível do comércio internacional, nas políticas alfandegárias preferenciais, na troca de tecnologias, na cooperação em matéria educacional e de saúde.

De certo modo, a criação da CELAC aponta nesta direção. Apenas para dar um exemplo, a construção de um porto de grande calado em Cuba, o Porto de Mariel, com a participação do Estado e de empresas brasileiras, constituindo ali um novo pólo industrial, inclusive com a geração de energia da biomassa, irá representar uma grande alavanca produtiva para todo o Caribe, além de significar, na prática, uma atitude concreta e concreta de rebeldia contra o Bloqueio a Cuba.

Não há caminho fora da integração, nenhum país pode conquistar desenvolvimento pleno isoladamente, sobretudo se considerarmos que não há possibilidade de desenvolvimento que não seja via maior protagonismo do papel do estado, seja em setores chaves da produção e certamente no planejamento. O capitalismo, baseado no endeusamento do mercado revelou toda sua anarquia e selvageria. Os EUA acabam de anunciar que haverá mais de 1 milhão de famílias despejadas de suas casas em 2012, e mais um milhão em 2013! Na Europa, os direitos do Estado do Bem Estar Social estão sendo demolidos, revela-se total incapacidade do capitalismo para qualquer solução civilizada e democrática para a crise. É importantíssimo que Marmud Ahmadinejad, presidente do Irã, tenha declarado em Cuba que “o capitalismo está em decadência”, e que tenha firmado acordos de cooperação com Venezuela, Nicarágua e Equador.
É indispensável que o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, ao fazer um balanço de sua própria caminhada, desde a sua fundação, examine o caminho percorrido por muitos movimentos que hoje se encontram no governo, na direção do estado, e tomando medidas para a integração econômica, para a redução das desigualdades, para o combate à miséria extrema, para a re-nacionalização das riquezas nacionais privatizadas e internacionalizadas. Os acordos e convênios já anunciados no seio da Celacb – seja para dinamizar a cooperação econômica, seja para um combate continental ao analfabetismo – como também a já anunciada disposição da Rússia em atuar como aliada da CELAC, indicam que não há outro caminho a não ser o da constituição de campos federativos, cooperativos, de blocos econômicos mais amplos e planejados.

No entanto, toda a cooperação no campo da economia, do comércio e das políticas sociais públicas, embora urgentes, não podem deixar de lado o exame da urgência para a cooperação também no campo militar, o que inclui a indústria bélica, a independência tecnológica. A sanguinária mensagem que o imperialismo enviou à humanidade com o massacre na Líbia não pode ser ignorada ou negligenciada pelos países do campo progressista. Aí estão as constantes ameaças à Venezuela, a Cuba, as tentativas de desestabilização da Bolívia e do Equador, o discurso colonial inglês contra a Argentina. Estas são ameaças a todos os países possuidores de riqueza mineral essencial, o petróleo entre outras. O que inclui, evidentemente, o Brasil, aliás como advertem vários textos das autoridades militares brasileiras sobre a natureza hegemônica destas ameaças! É preciso, portanto, uma cooperação nesta área industrial bélica e tecnológica.
A crise global do capitalismo, seu previsível agravamento, o levará a recorrer às ações de desestabilização de outros países, seja pela via de sabotagens financeiras, monetárias, e, também, ações de natureza militar, como as que já se insinuam e aplicam contra o Irã e a Síria. No entanto, o imperialismo anuncia que vai deslocar seu eixo de prioridades militares para o Pacífico, o que inclui considerar a China como um alvo prioritário. Por mais que a atual política da direção chinesa tenha sido de indiferença em relação aos movimentos e países progressistas, tendo priorizado exclusivamente ações de natureza econômica e comercial para atingir seus próprios objetivos estratégicos, os limites desta visão xenófoba e conservadora terminam por serem revelados pela própria crise do capitalismo e pela intenção dos EUA de controlar rotas energéticas que abasteçam a China, tenham origem no Irã ou em outros países. Ou seja, de principal credora dos EUA, a China passa a ser seu alvo militar. O que levará a China a revisar com celeridade sua política para mundo, abrindo passagem a correntes do Partido Comunista Chinês que, ao contrário da visão exclusivamente empresarial que predominou nos últimos 30 anos, tendem a buscar alianças e coordenação com países e movimentos do campo progressista e antiimperialista.

O Fórum Social Mundial de Porto Alegre pode estimular o debate mundial de políticas e programas que favoreçam a cooperação econômica e social entre os países que tenham um projeto estratégico de independência e soberania. Pode, também, convocar ao debate mundial, incluindo movimentos como “Ocupe Wall Street” para a necessidade de se preparar ante possíveis provocações que a alta cúpula do imperialismo venha a lançar, a exemplo do Atentado de 11 de Setembro de 2001, sempre com o mesmo objetivo, o de justificar uma ação militar generalizada e difusa contra a humanidade, sobretudo contra países que podem dar sustentação à urgente, inadiável, indispensável, formação de uma Frente Única Mundial Antiimperialista.
Porto Alegre, 24 de janeiro de 2012

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s