Mataram os cães das crianças diante delas e foram elogiados

Fonte: Blog da Cidadania

Praticaram todo tipo de violência contra aquele povo. Foram violências físicas e materiais, mas não só. Tanto violências físicas quanto materiais podem ser curadas, se não causam morte. Todavia, há um tipo de violência que a medicina não cura e que o dinheiro não indeniza: a violência que deixa marcas na alma, a violência psicológica.

Não é preciso ser psicólogo para entender os danos que presenciar cenas de guerra pode gerar para o desenvolvimento moral e intelectual de uma criança. Quando aquele pequeno cidadão participa delas, então, a possibilidade de ocorrerem danos irreparáveis em sua personalidade vira quase uma certeza.

Como crescerá aquela criança que viu pai e mãe sendo escorraçados, muitas vezes agredidos, enquanto bombas ensurdecedoras explodiam ao redor? E se a isso acrescentarmos a visão de seu animal de estimação sendo morto a tiros por um suposto representante da lei?

Será que essa criança crescerá com uma ojeriza intrínseca ao conceito de autoridade e com profunda descrença na lei?

E a revolta? O que causará em seu caráter, quando crescer? Poderá crescer com raiva da sociedade? Será que alguma dessas pessoas que adoraram o que fizeram com o povo do Pinheirinho não poderá encontrar uma daquelas crianças já crescida, algum dia no futuro? E será que não poderá, então, conhecer os efeitos que os traumas na infância causam?

Talvez, apenas talvez, passando por tratamento psicológico essa criança traumatizada poderá não vir a desenvolver alguma sociopatia no futuro. Tal possibilidade de eliminar os traumas naquele pequeno cidadão, porém, inexiste quando se trata de uma família muito pobre e de um Estado ausente.

A polícia matar a tiros o cãozinho de uma criança diante dela, obrigá-la a recitar, junto a seus pais e amigos, um refrão humilhante como o de que “O Pinheirinho é da PM”, são algumas das práticas que, segundo relatos que obtive ao entrevistar flagelados, alguns poucos membros da Polícia Militar paulista, em lágrimas, recusaram-se a cometer.

Menos mal para quem ainda quer manter um mínimo de fé na humanidade.

No depósito de gente que visitei na segunda-feira lá em São José dos Campos, enquanto fazia pausa entre uma entrevista e outra alguma coisa me agarrou a perna da calça. Era um garotinho de menos de um metro de altura.

Segundo dedinhos do tamanho de uma tampa de caneta informaram, quando lhe perguntei a idade, tem dois anos. Fala com aquele jeito característico dos bebês, até por ser pouco mais do que um bebê.

A profusão de crianças, segundo mães me disseram, é a principal razão para as famílias terem levado cães e outros animais de estimação para lá. Os laços das crianças com os animais as ajudam a suportar a situação.

De volta ao menininho. A diferença abissal de altura me impedia de ouvir o que balbuciava, de forma que o tomei nos braços, fui até uma mesa, coloquei-o sentadinho sobre ela e me sentei no banco.

Busquei primeiro acarinhá-lo para lhe ganhar a confiança. Cutuquei de leve, com o indicador, a sua barriguinha talvez mais proeminente do que deveria ser – avaliei naquele instante. Um sorriso, então, começou a se formar, deixando ver os dentinhos.

– Sabe que você é muito bonito?

Novo sorriso.

– Você gosta daqui?

O olhar se perde por um instante, mas o sorriso ressurge.

– Como é seu nome?

Não responde, apenas sorri. Então o bracinho se ergue e o dedinho aponta em direção ao muro que nos separa da rua:

– Ó, ó, ó…

– O que é?

– Ó lá…

– O que tem lá?

Ele não responde, o sorriso se desfaz e o olhar volta a se perder. Abaixa os olhos. Tento recuperar o sorriso, mas não volta.

Alguém me quebra o transe perguntando se não quero ir almoçar. Emito um suspiro involuntário, seguro a cabeça do menino com as mãos e lhe beijo a fronte. Depois o abraço. Ficamos assim alguns segundos. Sua cabeça recostada no meu ombro, ele silente e inerte.

Novo suspiro e o ponho no chão, tomando cuidado para não fazê-lo deixar cair a caixinha de papelão que manteve o tempo todo na mão, na qual se lê, em letras vermelhas e estilizadas, “Toddynho”.

Mal o garotinho toca o chão, ele vira as costas e sai correndo.

Especulei sobre o que quis dizer quando apontou para fora do “abrigo”, mas não farei ilações. O leitor que reflita sobre o que poderia ser ou se não era nada, ainda que não tenha sido o que me pareceu…

Durante a incursão no “abrigo”, testemunhei fatos como os que foram parar no documento que o governo federal divulgou ontem, quais sejam, de que nesses locais faltam condições de higiene, alimentação adequada e atendimento médico.

Um dos problemas identificados pela força-tarefa que foi àquela cidade levantar denúncias de violações de direitos humanos é o de que a presença de animais domésticos junto às famílias pode estar gerando a disseminação de doenças de pele, o que pode explicar as feridas nos braços daquele garotinho.

Também parece relevante relatar que percebi os animais prostrados. Poucos caminham, nenhum late. Nem com a presença de estranhos ou com as crianças mexendo com eles.

Também percebi, em vários pontos do abrigo, diferentes crianças rondando e tentando brincar com um mesmo animal. Lembrei-me disso ao ler, no documento de denúncia do governo federal, relatos como os que eu mesmo fiz em mais de uma das fichas de denúncia que preenchi, de que a polícia teria matado animais domésticos das crianças diante delas.

Hoje, leio artigo do senador tucano por São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira, na Folha de São Paulo. Trata-se de um texto primário, protocolar, que só pode fazer sentido para quem não viu cena alguma do que aconteceu e continua acontecendo em São José dos Campos.

Na verdade, só quem não foi até lá, não conversou com aquele povo, não viu as condições em que está, tanto do ponto de vista psicológico quanto fisicamente, pode escrever uma coisa como aquela. Ou, então, só quem não tem um pingo de caráter.

Posso garantir que já há provas materiais de que muito do que se diz ali é mentira, e há indícios fortes – muitos dos quais ainda virão a luz – de que a outra parte do texto que ainda não pode ser desmascarada com facilidade, é mentira ou desinformação.

Haverá tempo para desmascarar as mentiras. E serão desmascaradas. Percebo que há um sentimento forte na sociedade de que aquilo não pode ficar impune justamente para que não se cumpra a profecia que fizeram as autoridades de São José dos Campos, de que o ataque ao Pinheirinho servirá de “exemplo”.

Enquanto as mentiras não forem totalmente desmascaradas, a sociedade terá que lidar com a indignação que dá ver soldados que mataram animais de estimação diante de crianças sendo elogiados pelas autoridades paulistas. Por isso voltarei a São José dos Campos, para ajudar a desmascarar essa farsa.

—–

Assista a matéria da TV do PT sobre o que a força-tarefa do Condepe apurou em São José dos Campos

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