Quem é capaz de apoiar a ditadura?

Aprendi mais uma hoje: Morrer de "taca" é morrer sob tortura. Esse é um termo conhecido entre os camponeses do Araguaia, que hoje testemunham a violência diabólica cometida pela última ditadura de direita no Brasil.

Exploração contra o trabalhador e açoite para os questionadores. Dor na senzala para garantir os lucros fabulosos de uma minoria.

A ditadura brasileira reviveu completamente o período escravista. Trata-se do mesmo espírito, das mesmas práticas, em todos os lugares do mundo.

Isso também se reproduz nos dias de hoje, através do cruel tratamento dispensado às classes excluídas, marginalizadas e criminalizadas, especialmente no sistema carcerário: uma enorme e cruel injustiça cometida pela sociedade atual.

O que pensar daqueles que até hoje são capazes de deitar argumento favorável à ditadura?

Os crimes cometidos estão evidentes há muito tempo. Não há dúvida.

Crimes em nome de quê? Da ganância de uma minoria e da indiferença cômoda da maioria.

Não existe justificativa para esse tipo de crime. São hediondos. No Brasil, a ditadura só fez proteger o sistema de exploração que gera riquezas fabulosas para uma minoria nacional e internacional e miséria e degradação para a maioria. Esse foi o único objetivo de toda violência.

Esse é o fundamento básico da sociedade capitalista: garantir o privilégio da minoria pelo sacrifício da maioria, sob qualquer custo.

A ditadura foi ontem, e foi tão cruel quanto o período escravista. E os seus defensores estão por aí, defendendo-a impunemente, crentes da ignorância alheia.

O que podemos concluir disso? É simples: que estamos sujeitos a retornar a esse período uma hora ou outra, graças à manipulação midiática e ao pensamento medieval que insistem persistir. Outro aliado? As falsas religiões e o falso moralismo, grandes manipuladores de consciências, a semear a caça-às-bruxas, característica desses períodos obscuros.

Uma sociedade medieval, enfim, é a que temos: Uma sociedade que escolhe deliberadamente ignorar a injustiça para manter seus parcos privilégios.
Para a ruína e desgraça de todos, cada dia se faz um dia pior com a mentalidade capitalista.

A saída? Inverter o paradigma que rege o sistema social.

O objetivo fundamental do sistema polítio-econômico nacional deve ser a satisfação igualitária das necessidades de TODOS e não a garantia de lucro para poucos a todo custo.

Isso se chama socialismo. E é nesse direção que se deve caminhar para que a vida social seja harmônica e justa.

Mesmo que se tenha que enfrentar os criminosos defensores da ilegitimidade capitalista.

Do Vermelho:

Houve mais camponeses mortos no Araguaia do que se fala

Após uma viagem de 40 minutos de carro desde o centro de Marabá, parte dela feita em estrada de terra, chega-se a uma rua onde a lama impede a passagem do jipe. A única maneira de atravessar é a pé. São 20 minutos de caminhada na lama até chegar à casa do camponês Abel Honorato de Jesus, o Abelinho.

Por Tatiana Merlino, em Pública

O homem franzino é um dos posseiros da região onde foi implantada a Guerrilha do Araguaia (1972-1975) e que foram obrigados a trabalhar como mateiros do Exército, ajudando na captura dos militantes que se instalaram por lá. Grande conhecedor da área e de parte dos guerrilheiros – Abelinho chegou a trabalhar no garimpo com Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, o mais famoso guerrilheiro do Araguaia –, o lavrador trabalhou com o Exército até 1983.

Recentemente, Abelinho tem colaborado com o trabalho da equipe do GTT (Grupo de Trabalho Tocantins) fornecendo informações e sustenta a tese de que o número de camponeses assassinados pelas forças do Estado durante o período da guerrilha é maior do que se tem notícia. “Eu conheço muita gente que morreu de taca [surra]”, conta.

O ex-mateiro também afirma ter visto “muitos camponeses apanharem, serem torturados. Lavei sangue demais desse povo. Enrolavam um saco de estopa num rodo e eu empurrava o sangue dessa gente”. Além dos camponeses que aderiram à guerrilha e os que ajudaram os militantes com comida e suprimentos, também muitos mateiros foram assassinados, mesmo tendo colaborado com o Exército, recorda o lavrador.

Segundo o pesquisador Paulo Fonteles Filho, integrante da ouvidoria do GTT, embora se estime que o número de desaparecidos do Araguaia, entre guerrilheiros e camponeses, gire em torno de 100 pessoas, “eu tenho convicção que naquele processo foram mortas 500 pessoas ou mais”.

Segundo ele, há informações novas que estão sendo reveladas por ex-soldados do Exército, que hoje subsidiam o GTT. “Há camponeses que estavam na mata como castanheiros e foram fuzilados por uma tropa, por exemplo. Nosso papel também é falar desses anônimos”, esclarece. De acordo com ele, a violência do Estado contra os moradores da região também foi “brutal”. “Eles foram maltratados, sofreram, foram torturados, perderam suas roças”.

Um dos ex-soldados que está colaborando com o GTT é Manoel Messias Guido Ribeiro, que combateu na base de Xambioá. Ele conta que o tio de sua esposa foi morto de “taca” na serra das Andorinhas, apenas por ter dado comida aos guerrilheiros. “Vi muitos camponeses presos”. Guido também presenciou a tortura de camponeses na sede local do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), a chamada “casa azul”. “Ouvi gritos absurdos, arrastávamos corpos, vivos mas desmaiados. A gente jogava água em cima deles e levava de volta”.

Operação Limpeza

O ex-soldado maranhense afirma ter participado da “Operação Limpeza” de 1975, quando as forças de repressão ainda “caçavam” remanescentes do “terrorismo”, como possíveis colaboradores dos guerrilheiros. “Da segunda limpeza, feita para retirar os ossos, eu não participei, mas a gente ouvia falar: ‘estão arrancando ossos de gente por aí’”. Guido afirma que a região esteve vigiada até 1980. “Ainda está hoje. Não pense que não está”, garante. Guido também diz se sentir inseguro “com o que estamos falando, pois estamos rodeados deles por aí”, acredita.

Em depoimento em vídeo colhido pelo GTT, Valdim Pereira de Souza, ex-funcionário, ex-militar e motorista do major Curió [oficial da
reserva Sebastião Rodrigues de Moura, um dos líderes da repressão à
Guerrilha do Araguaia], entre 1976 e 1983, relata que em 1976 participou da retirada dos corpos e ossadas dos guerrilheiros e camponeses mortos em muitas localidades da região. Sua missão era levar para a sede do DNER vários sacos amarrados com um cordão.

“Os sacos pesavam cerca de 100 quilos e, dentro, soube depois, por meio de um servidor do próprio DNER conhecido por “Pé na Cova”, havia ossos humanos. O cheiro era insuportável. Os homens do Exército que comandavam a operação eram o doutor Luchini (Sebastião Curió) e os sargentos Santa Cruz e Ribamar”, disse. “Não tínhamos o direito de saber o que fazíamos, apenas cumprir a nossa obrigação e as determinações superiores”, completa.

Ameaças

Como resultado das denúncias, Valdim, assim como outros camponeses e moradores da região, foi ameaçado. Em dezembro do ano passado, ele recebeu ligações em seu celular, que diziam: “pare de falar besteira”, “fica calado, não te mete em encrenca”, “tenha cuidado com o que anda falando por aí”. Neste ano, as ameaças aumentaram. Em 2 março, uma caminhonete com película de insulfilm nos vidros rondou sua casa em Macapá, no Amapá. Valdim acredita que é Curió quem está por trás das ameaças: “O Curió é corajoso e me disse certa vez que quem fala muito morre, e dizia que ‘inimigo bom é inimigo morto’”.

Um carro com insulfilm também rondou a casa do representante da Associação dos Camponeses do Araguaia, Sezostrys Alves da Costa, no mesmo dia 2 de março, em São Domingos do Araguaia. Os quatro homens que estavam no veículo procuraram por ele e Paulo Fonteles.

Em 27 de março, Mercês Castro, irmã de Antônio Teodoro Castro, desaparecido político no Araguaia e membro do GTT, sofreu um acidente em Marabá. “As porcas de um pneu do carro foram afrouxadas e a roda foi cuspida do carro. Denunciamos isso para a Polícia Federal, enviamos isso para a juíza Solange Salgado”, relata Paulo Fonteles. “Mas não vamos abrir mão do nosso trabalho. Pode vir ameaça, mas não vamos arredar pé daqui”, conclui.

Segundo Paulo Fonteles Filho, o primeiro registro de ameaça ocorreu em junho do ano passado “contra o camponês Beca, morador de São Domingos do Araguaia, que foi torturado pela repressão política e é colaborador do GTT”.

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=1&id_noticia=153685

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